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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Se sabes

Das ironias da vida, tu que constróis muros,

fizeste-me um castelo, puseste-me na torre mais alta.

Ensinaste-me que o amor tem que ser sonoro

e, aos poucos, parece construir muros entre nós.


Se te recolhes ou me afastas, tão pouco sei.

A distância ecoa quando nossos corpos se tocam,

como se partes de ti lutassem para permanecer,

enquanto outras vagueiam no caos, ao longe.


Onde habito em meio ao teu tormento?

Sou tua calmaria ou o tumulto do teu ser?

E, nas sombras, desejo ser teu acalento.

Se sabes esse amor receber.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Morada

O mesmo lugar, as mesmas luzes brilhando lá fora. Dois dias distintos, dois sentimentos tão ambíguos e com nomes tão parecidos.

Ontem, a paz gritava; o sentimento de conquista e de estar de volta onde me sinto pertencente me dominava. A casa vazia sussurrava minhas conquistas ao longo do caminho. O sofá afagava minha pele e me contava que, no fim do dia, eu tinha a mim mesma, e bastava. O passado me dava força para enfrentar o incerto, me lembrava que sou capaz e de tudo o que já conquistei até aqui. A solitude é fortaleza da mente sã.

Hoje, o medo entrou sem fazer barulho. Lentamente, instalou-se. As luzes da cidade perderam um pouco do brilho. O silêncio da mesma casa vazia perturbou-me e ecoou incertezas sobre quem sou depois de uma vida inteira fora, tentando me encontrar. O mesmo sofá que me afagava agora não me acolhe, não me reconhece, não me conforta. Lembra-me das minhas faltas e de um caminho por muito tempo trilhado só. A solidão é onde a derrota da mente doente mora.

O mesmo lugar, as mesmas luzes brilhando lá fora. Dois dias distintos, dois sentimentos tão ambíguos e com nomes tão parecidos. Eu sou morada de todos eles.

Navegar-me, vasculhar-me. Olhar nos olhos dos meus monstros e reconhecer que neles moram partes de quem fui, de quem sou. E, provavelmente, de quem irei ser. Aceitar que, para ser heroína de mim mesma, sou um universo que carrega dias de fortaleza e dias de dor, e que meus quadros quebrados ocupam a mesma casa que meus vasos mais floridos.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Mais que paixão

Hoje não te trago poesia. Não tem estrutura nem palavras alinhadas; talvez, sim, um pouco de rima. Afinal, a música em mim vibra em euforia quando palavras viram melodia. Simplesmente não consigo evitar. É mais forte que eu.

Mais fortes que eu também são as palavras que carrego às custas da paixão. Palavras que ferozmente são lançadas num canhão de emoções latentes e que explodem quando descobrimos que a paixão se move em uma via de mão dupla. Elas fogem do controle, escapam da boca nas trocas de olhares mais sutis ou ao breve toque de nossos corpos. E também em momentos sem significado de uma rotina de trabalho, onde a memória grita o seu nome.

É como se todo o meu ser, guiado pela orquestração hormonal que compõe a droga que ofusca a razão, quisesse mostrar que te quero e que sou sua por completo.

Mas veja bem, meu bem, minhas palavras não são efêmeras, não são leves e não voam como penas. A paixão acende, mas é o amor que faz queimar. E eu? Sou calor, sou fogo consumidor. Não tem meio: ou aqueço ou apago. Ou brilha a chama de quem sou, ou nem aqui estou.

Minhas palavras não se vão junto com a paixão. O calor do meu amor transborda em verso, prosa e poesia por onde quer que eu vá. Eu não engulo palavras, não raciono declarações bobas de amor às 3 da tarde de uma terça qualquer. E cuido com afeto para que as palavras não me deixem, porque, quando elas se vão, fica um vão. E eu sou imensidão.


sexta-feira, 12 de junho de 2026

Depois

 Inúmeras juras de amor, outrora ditas,

Os frutos desse amor, enfim, já colhidos.

Tendo toda uma vida antes já vivida,

Nenhum instante desse tempo foi perdido.


O antes fincou as raízes do teu ser,

Te fez tão teu para que fosses meu.

Transbordou as palavras do meu querer,

No passado, nosso encontro se escreveu.


E talvez daí venha toda essa certeza:

Que o que por ti tenho é amor antigo.

O peso que carrega a alma há de virar leveza,

E então podermos ser um do outro abrigo.


Foi o antes que nos trouxe até o agora,

Costurando, feito retalhos, nossas histórias,

Ladrilhando nossos caminhos ao depois.

domingo, 24 de maio de 2026

Muros de aço.

Da solidão que me criou

No vazio, minh’alma ecoou.

De tanto querer pertencer,

Acabei por me perder.


Na ausência dos outros, me perdi.

Me encaixar. Me moldar. Fingi.

Fingi ser forte, sagaz, capaz.

Abracei a mentira em busca de paz.


Sou mesmo forte?

Ou foi tudo pura sorte?

Parece que a solidão ecoa mais alto

Quando a casa tem muros de aço.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Escrevo amor

Eu escrevo como gostaria de ser amada.
Troco o sujeito para disfarçar meus anseios.
Crio como quem pede ao universo
que realize um desejo.

Meu coração intenso quer viver tudo o que escrevo.
Dos contos criados sem compromisso com a realidade
aos meus quase amores espalhados pela escrita.
Amar em queda livre, hoje, define minha vida.

Quantas vezes vi o amor de relance.
Quantas vezes, em prosa ou poesia,
eternizei alguém irrelevante.
Mas hoje sigo sem medo, curada do “e se”,
que já foi algoz do meu aconchego.

Encontro a calmaria no olho do meu furacão,
permito-me viver toda a minha imensidão
e dou vazão às águas do meu sentir.
Porque sobrevivi a tudo o que me trouxe até aqui
e ser amor ainda é minha maneira de existir.
De tudo o que vivi, de amor não morri.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Me fala, cara


Eu gosto de quem fala na cara

Despeja amor, raiva… tara

Não se esconde em meias palavras

Coisa fina, joia rara.


Não precisa de verso, de rima

Precisa de verdade e coragem

De bancar o próprio coração

De viver sem perder a viagem


Às vezes falar sem pensar é bom

Deixar fluir o que tem no coração

E se não for, a gente segue adiante

Amor não se guarda em estante


Não precisa de verso perfeito

Me sussurra e já me dou por satisfeito

E se por ventura do amor tens medo

Por favor, não me guarde como segredo


Me olho no olho, me faz sorrir

Porque da vida tenho urgência

Não sei como jogar, nem fingir

Eu vim pra essa vida foi pra sentir

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Sei lá, meu bem


Sei lá, meu bem

Gosto do cheiro que tem

A presença de quem

Sabe sentir também


Sentir o fogo do olhar

O arrepio do tocar

A falta de ar

Que a tua boca me dá


O corpo sua inteiro

Perdido num olhar faceiro

A poesia volta ligeiro

Que bom ser brasileiro


Do frio da carência

Ao desejo de urgência

A poesia é evidência

Sou só presença


Dúvidas chegam ao fim

Há vida nesse jardim

Voltei pra mim

Enfim.




[Eita que precisa de terapia, essa menina.]

Não Espera

Inquieta o silêncio da espera
A falta de resposta, de certeza
E na certeza, a vontade de viver
Viver tudo de uma vez

Ou se tropeça, e embaraça o caminho
Ou se para, e desiste de se percorrer
Mas se incompleta por se perder
No tempo da espera

De esperar criei raiz,
Mas já quis voar também
Pra longe do desdém do tempo
Que dizem por aí que é bento


*Escrito em Dezembro de 2015, perdido aqui nos rascunhos.

Perguntas que vagueiam.

E, de repente, uma urgência em escrever.

Como se as palavras que outrora dormiam tivessem despertado ao simples toque dos seus lábios na minha nuca.

Veja bem, meu bem, não estou falando de amor, tampouco de paixão. Falo da urgência do desejo que se apagou no que pensei ser a calmaria de um amor verdadeiro.

Milhões de perguntas invadiram a minha mente junto ao encontro dos nossos corpos quentes.

Eu me convenci de que a solidão a dois era mar sereno? Ou, por falta de afeto no início do meu caminho, não entendi que amor não se vive sozinho?

Poucas palavras se tornaram meu cotidiano. Logo eu, que mergulhava na profundidade do que sentia e de tudo escrevia. Às vezes em prosa e verso, às vezes despejando meu coração totalmente sem nexo.

Onde foi que tudo se perdeu? Como eu, que demorei tanto para me amar, aceitei por tanto tempo no raso nadar?

Ah, a presença… o estar por completo. Em que momento o raso se tornou meu concreto?

E como posso assim me expor, se por tanto tempo meu mundo sem poesia ficou?

Talvez o medo da solidão tenha me feito viver nessa passividade de sentimentos.

Sentir demais me sufocava, e agora sentir pouco me adormece a alma.

É possível se encontrar no meio? Sentir sem sufocar-se, permitir-se sem receios.

Quantas perguntas vagueiam na mente de quem se julgava inteiro.


[Tirando a poeira depois de quase 11 anos sem postar/escrever]