O mesmo lugar, as mesmas luzes brilhando lá fora. Dois dias distintos, dois sentimentos tão ambíguos e com nomes tão parecidos.
Ontem, a paz gritava; o sentimento de conquista e de estar de volta onde me sinto pertencente me dominava. A casa vazia sussurrava minhas conquistas ao longo do caminho. O sofá afagava minha pele e me contava que, no fim do dia, eu tinha a mim mesma, e bastava. O passado me dava força para enfrentar o incerto, me lembrava que sou capaz e de tudo o que já conquistei até aqui. A solitude é fortaleza da mente sã.
Hoje, o medo entrou sem fazer barulho. Lentamente, instalou-se. As luzes da cidade perderam um pouco do brilho. O silêncio da mesma casa vazia perturbou-me e ecoou incertezas sobre quem sou depois de uma vida inteira fora, tentando me encontrar. O mesmo sofá que me afagava agora não me acolhe, não me reconhece, não me conforta. Lembra-me das minhas faltas e de um caminho por muito tempo trilhado só. A solidão é onde a derrota mora.
O mesmo lugar, as mesmas luzes brilhando lá fora. Dois dias distintos, dois sentimentos tão ambíguos e com nomes tão parecidos. Eu sou morada de todos eles.
Navegar-me, vasculhar-me. Olhar nos olhos dos meus monstros e reconhecer que neles moram partes de quem fui, de quem sou. E, provavelmente, de quem irei ser. Aceitar que, para ser heroína de mim mesma, sou um universo que carrega dias de fortaleza e dias de dor, e que meus quadros quebrados ocupam a mesma casa que meus vasos mais floridos.
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